domingo, 1 de março de 2009

Processo de Ensino-Aprendizagem do jovem futebolista


O Futebol ocupa um lugar importante no contexto esportivo contemporâneo, dado que, não é apenas um espectáculo, mas também um meio de educação física e um campo de aplicação da ciência (Garganta, 2002).

Quando abordamos a metodologia de ensino-aprendizagem no esporte infantil/juvenil, temos que centrar nossas atenções no processo de desenvolvimento da criança e do jovem ao longo do tempo (maturação e crescimento), contínuo, irregular e individualizado. Neste contexto torna-se fundamental adequar o ensino/treino às características individuais, condição essencial para que se verifique uma ação favorável deste sobre a criança/jovem.

Contudo, a valorização social do esporte e do futebol, em particular, tem fomentado a tendência da especialização precoce na perspectiva de encontrar crianças com potencialidades para a prática esportiva de alto rendimento, potencializando prematuramente uma formação unilateral e especializada do jovem, contribuindo para uma preparação inadequada aos pressupostos do treinamento com crianças/jovens.

Os modelos de treinamento dos adultos têm sido utilizados no treinamento com crianças e jovens, em pleno processo de desenvolvimento, induzindo prejuízos para estes enquanto indivíduos, cidadãos e, também, enquanto praticantes. Assim, a metodologia de ensino-aprendizagem de crianças/jovens deverá processar-se de forma progressiva e regular, estruturada a longo prazo, privilegiando os objetivos definidos. Deverá dar também prioridade à formação e desenvolvimento da criança/jovem e, quanto mais baixa for a idade, mais multilateral e geral deverá ser a sessão de treinamento, relativo ao sucesso esportivo na modalidade.

Na aplicação de qualquer metodologia devem existir princípios base que regulem todo o processo, sendo, neste caso, o do Ensino-Aprendizagem do jogo de Futebol. Assim destacamos os seguintes princípios:

Princípios Biológicos: estímulos que provocam modificações no organismo para atingirem uma ótima ativação nos mecanismos perceptivo-sensoriais, energéticos e de adaptação.

  1. Sobrecarga

  2. Especificidade

  3. Reversibilidade

  4. Adaptação

Princípios Metodológicos: No que concerne os princípios metodológicos, entendemos como uma orientação ou sistematização de um processo que engloba pressupostos de desenvolvimento das capacidades condicionais, das aptidões técnico-táticas e das qualidades psicológicas para um fim que é o jogo de Futebol.


  1. Princípio da progressividade do exercício de treino – A melhoria do estado de treino de um jogador depende do aumento progressivo do treino. Por isso, à medida que o processo de treino evolui há necessidade de aumentar progressiva e gradualmente o nível de exigências de treino. A progressão dos exercícios de treino, normalmente, processa-se de duas formas: linear (contínua) e variável.
  2. Princípio da continuidade da aplicação do exercício de treino – O treinamento deve ser um processo contínuo, estruturado para várias semanas, meses, anos, para que os seus efeitos não se percam e sejam aumentados e assimilados, provocando uma evolução das capacidades. Como a adaptação do organismo é um processo reversível, sempre que o treino é interrompido de forma prolongada, verifica-se uma diminuição do nível de algumas capacidades.

  3. Princípio da ciclicidade do exercício de treino – Este princípio baseia-se no carácter cíclico da alternância esforço/repouso e recuperação que caracteriza o treinamento esportivo. Está presente quando definimos os objetivos, os conteúdos, os métodos de treino e o processo de planejamento, para conseguir um aumento das capacidades funcionais do jogador. Este princípio expressa-se claramente nas três fases da forma desportiva: aquisição, estabilização e perda temporária.
  4. Princípio da variação do exercício de treino – Os jogadores repetem inúmeras vezes os exercícios de treino. Por isso, torna-se necessário variar o treinamento em função da sua identidade e das situações reais de competição (especificidade dos quadros competitivos, objetivos, conteúdos e forma do treino). Este princípio da variação está, portanto, diretamente relacionado com alternância do volume e da intensidade e, também, com a contínua repetição de exercícios de treino que, como resultado da monotonia, poderão conduzir os jogadores à estagnação do rendimento.
  5. Princípio da modelação do treino – Este princípio metodológico refere-se especialmente à modelação do exercício de treino enquanto processo que procura relacionar o exercício de treino com as exigências específicas da competição. Assim, quanto maior for o grau de correspondência entre os modelos utilizados (exercícios de treino) e a competição inerente ao jogo, melhores e mais eficazes serão os seus efeitos.
  6. Princípio da multilateralidade – O cumprimento deste princípio metodológico pressupõe a relação ótima entre a preparação geral e especial. O progresso otimizado processa-se com base no desenvolvimento geral das capacidades funcionais do organismo e das capacidades técnicas, tcticas e psicológicas. Contudo, a preparação geral deve ser entendida na base e no respeito do jogo de futebol no que se refere aos seus meios e métodos, bem como das componentes estruturais.
  7. Princípio da individualização do exercício de treino – A obtenção de resultados desportivos deve assentar no respeito pelo desenvolvimento de cada indivíduo, ou seja, nas suas capacidades motoras, funcionais, psicológicas e morais. Cada ser humano constitui uma individualidade biológica e psicológica, reagindo e adaptando-se de forma diferente à aplicação do exercício de treino. São exemplos: a idade, o nível de treinamento, as diferenças específicas do sexo, etc..

Princípios Pedagógicos: Neste domínio, compreendemos que são a base do saber estar no jogo ou na sessão de treino. Na organização dos exercícios devemos ter atenção o desenvolvimento de várias competências dos jovens atletas com harmonia em relação à aprendizagem, os mecanismos de adaptação e a autonomia para concretizarem os seus recentes conhecimentos.

  1. Princípio da atividade consciente – A compreensão clara por parte dos jogadores dos objetivos operacionais, dos conteúdos para a sua concretização e os níveis de performance, é um pressuposto deste princípio para que os jovens praticantes desenvolvam as tarefas de forma ativa, empenhada e autônoma.
  2. Princípio da sistematização – Para a concretização deste princípio, interessa um estabelecimento de progressões pedagógicas claras e concretas, atingindo assim um conjunto de etapas definidas para atingir um objetivo mais global.
  3. Princípio da atividade apreensível – Este princípio pedagógico pressupõe o compromisso entre a complexidade e a dificuldade do exercício com a capacidade atual do praticante.
  4. Princípio do desenvolvimento do praticante – Não deveremos caracterizar o jovem como um simples instrumento. Para a adoção deste princípio pedagógico interessa que o exercício de treino esteja sempre em sintonia com o desenvolvimento harmonioso e equilibrado do praticante.
  5. Princípio da estabilidade e desenvolvimento das capacidades – Este princípio pedagógico pressupõe que o desenvolvimento e aquisição de determinadas competências por parte dos jogadores advêm de um exercício corretamente construído e orientado.

Fases do Processo de Ensino-Aprendizagem: Para qualquer faixa etária, patamar e/ou nível de aprendizagem definimos três fases: aprendizagem, desenvolvimento e consolidação. No entanto, entende-se que este processo não é fixo nem estanque, ou seja, que a passagem por estas fases não é sequencial-irreversível.


A fase de aprendizagem consiste em:

  • Desenvolver uma instrução concreta e dirigida para a descrição dos aspectos críticos e critérios de sucesso dos conteúdos que devemos abordar;
  • Introduzir os conteúdos principais da sessão, desde o início da mesma;

  • Desenvolver padrões motores adequados e facilitar para que os atletas possam alcançar o objetivo proposto;
  • Desenvolver mecanismos facilitadores de estruturação cognitiva adequados ao problema apresentado;
  • Desenvolver um estilo de ensino mais direto, sustentado em ciclos de feedback descritivos e prescritivos;
  • Realizar sempre uma sessão de treino motivadora e competitiva.

A fase de desenvolvimento sustenta-se em:

  • Formular uma instrução inicial mais sintética e objetiva no que respeita aos aspetos críticos e critérios de êxito de cada conteúdo;
  • Promover um equilíbrio entre a dificuldade e a complexidade dos comportamentos técnico-táticos individuais e coletivos;
  • Garantir de uma forma acentuada a repetição de todos os conteúdos durante a sessão;
  • Integrar as capacidades físicas dentro da sessão, sem prejudicar o desenvolvimento dos conteúdos técnico-tácticos;
  • Desenvolver um estilo de ensino, através da descoberta guiada baseado nas capacidades adquiridas, sustentado em ciclos de feedback interrogativos e avaliativos.

A fase de consolidação suporta-se em:
  • Fundamentar a instrução inicial com base nos comportamentos desenvolvidos entregando-lhes apenas os critérios de êxito;
  • Desenvolver os conteúdos no limite da dificuldade e complexidade de acordo com o nível, patamar e faixa etária;
  • Promover ao máximo a experimentação de todos os problemas apresentados pelos conteúdos de forma a potencializar a velocidade das tomadas de decisão;
  • Potencializar situações para a criação de novas soluções aos problemas apresentados durante as sessões de treino (autonomia);
  • Promover a descoberta guiada com base no desenvolvimento dos conteúdos, sustentado em ciclos de feedback avaliativos e afectivos;
  • Realizar sempre uma sessão motivadora e competitiva.

Desta forma acreditamos no desenvolvimento ótimo e adequado do jovem futebolista, e como sugestão, fica a proposta para futuras postagens, exemplos práticos dos métodos descritos.

2 comentários:

Diogo Santos disse...

Só pra confirmar o que ja havia dito em particular. Muito bom texto Cesar.

Bruno Pasquarelli disse...

Muito bom César...
E esse livro do Garganta? Não vai dar um de presente p/ o seu amigo não?
Essas coisas a gnt ainda nao encontra no Brasil.