quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Pico de Velocidade de Crescimento (PVC): alternativa para o acompanhamento da maturidade somática do jovem atleta


A idade do pico de velocidade de crescimento (PVC) é o indicador mais comumente utilizado em estudos longitudinais, considerando a maturidade somática do adolescente (MALINA; BOUCHARD; BAR-OR, 2009), podendo figurar numa interessante alternativa de classificação biológica. Mediante o acompanhamento das variáveis de crescimento, pode-se detectar o momento em que o indivíduo atinge o PVC. Embora seja possível determinar os picos de velocidade em estatura, peso corporal e somatório de dobras cutâneas, o marco somático mais utilizado em estudos da velocidade do crescimento é a idade do pico da estatura (BAXTER-JONES; EISENMANN; SHERAR, 2005).

Obviamente, seriam necessárias várias medidas durante um determinado período do crescimento, o que tornaria essa metodologia inviável para investigações transversais, quando apenas a realização de uma única medida fosse possível (MACHADO; BONFIM; COSTA, 2009). Neste sentido, Mirwald et al. (2002) desenvolveram uma técnica prática e não invasiva, que requer uma avaliação única de poucas variáveis antropométricas, capaz de predizer a distância em anos em que um indivíduo se encontra da sua idade do PVC.

Usando os sincronismos diferenciais conhecidos do crescimento da estatura, da altura tronco encefálica e dos membros inferiores, é possível pressupor que as relações proporcionais de mudança entre esses segmentos, podem prover uma indicação do status maturacional (BAXTER-JONES; EISENMANN; SHERAR, 2005). Nesse modelo, foram incluídas interações entre comprimento de perna e altura tronco encefálica, idade e comprimento de pernas, idade e altura tronco encefálica, bem como razão entre peso e estatura.

Aceitáveis índices de determinação (r2=0,89) e erro padrão da estimativa (EPE=0,569) foram encontrados (MIRWALD et al.,2002). Além do mais, o nível de precisão do modelo tem sido investigado em outros estudos, uma vez que é possível sua aplicação em diferentes delineamentos de pesquisa (SHERAR et al., 2005; SHERAR; BAXTER-JONES; MIRWALD, 2004). A utilização de instrumentos para avaliação da maturação biológica, que sejam eficientes e de fácil aplicação, pode auxiliar na correta interpretação da maturação relacionada ao desempenho motor. Todavia, a indicação da melhor alternativa deve ser investigada, uma vez que seus efeitos podem contribuir para a elaboração de um plano didático-metodológico que norteiem os exercícios para jovens esportistas (MACHADO; BONFIM; COSTA, 2009).

Para meninos

DPVC = – 9,236 + [0,0002708 x (CPxTC)] + [–0,001663 x (IxCP)] + [0,007216 (IxTC)] + [0,02292 x (P/E)x100]

Para meninas

DPVC = – 9.376 + [0,0001882 x (CPxTC)] + [0,0022 x (IxCP)] + [0,005841 x (IxTC)] – [0,002658 x (IxP)] + [0,07693 x (P/E)x100]

Onde: CP = Comprimento de Perna; TC = Altura Tronco encefálica; I = Idade; P = Peso; E = Estatura.

Analisemos, então, um exemplo prático para melhor entendimento:

Indivíduo A
Sexo: masculino
Idade: 11,25 anos
Estatura: 149,4 cm
Peso corporal: 40,0 kg
Comprimento de perna: 70,4 cm
Altura tronco encefálica: 79,0 cm

Calculando a distância, em anos, que o indivíduo se encontra do PVC:

DPVC = 9,236 + (0,0002708 x 5561,60) + ( 0,001663 x 792,21) + (0,007216 x 888,99) + (0,02292 x 26,77)

           = 2,0 anos do PVC

Assim,

Idade em que atingirá o PVC (IPVC) = 11,25 – (– 2,0) = 13,25 anos.

Estudos longitudinais como de Beunen et al. (1997) e Lefreve et al. (1990) apresentaram valores de 14,2 anos de idade no PVC e 14,3 anos de idade no PVC, respectivamente. Importantes estudos transversais como de Iuliano-Burns, Mirwald e Bailey (2001) e Sherar, Baxter-Jones e Mirwald (2004), envolvendo escolares, identificaram o PVC nas idades 13,4 anos e 13,7 anos, respectivamente. Malina, Bouchard e Bar-or (2009) sintetizaram estudos envolvendo meninos europeus os quais demonstraram faixas entre 13,8 e 14,2 anos de idade coincidindo com o PVC. Segundo estes autores, há uma provável interferência de fatores étnicos e sócio-econômicos nestas variações do momento de PVC.

Em um estudo envolvendo praticantes brasileiros de futebol, Machado, Bonfim e Costa (2009) evidenciaram uma média etária do PVC correspondente a 14,7 anos. Por outro lado, Bergmann et al. (2007) encontraram médias etárias do PVC consideravelmente menores, apresentando valores entre 12 e 13 anos representados por escolares brasileiros.

Analisando a relação entre PVC e desempenho físico, alguns autores sugerem uma “janela de treinabilidade” para as seguintes capacidades físicas:


Para os profissionais envolvidos na formação esportiva de atletas, estas informações são de suma importância para determinar quais estratégias de treinamento poderiam ser adotadas ao prescrever as cargas de treino. Em termos práticos, jovens atletas que atingem o PVC tardiamente não podem ser submetidos à cargas de treino, por exemplo, semelhantes às daqueles que o atingiram, considerando que já ultrapassaram estágios importantes de desenvolvimento físico em direção à idade adulta. Deste modo, a identificação da idade de PVC de jovens atletas consiste em um importante parâmetro para estimar em que estado maturacional eles se encontram, o que contribui para o melhor entendimento de suas características respeitando suas evoluções físicas individuais.

Referências

BAXTER-JONES, A. D. G.; EISENMANN, J. C.; SHERAR, L. B. Controlling for maturation in pediatric exercise science. Pediatric Exercise Science, v. 17, n. 1, p. 18-30, 2005.

BERGMANN, G. G. et al. Pico de velocidade em estatura, massa corporal e gordura subcutânea de meninos e meninas dos 10 aos 14 anos de idade. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, v. 9, n. 4, p. 333-338, 2007.

BEUNEN, G. et al. Prediction of adult stature and noninvasive assessment of biological maturation. Medicine and Science in Sports and Exercise, v. 29, n. 2, p. 225-230, 1997.

FORD, P. et al. The long-term athlete development model: physiological evidence and application. Journal of Sports Sciences, v. 29, n. 4, p. 389-402, 2011.

IULIANO-BURNS, S.; MIRWALD, R. L.; BAILEY, D. A. Timing and magnitude of peak height velocity and peak tissue velocities for early, average and late maturing boys and girls. American Journal of Human Biology, v. 13, n. 1, p. 1-8, 2001.

LEFREVE, J. et al. Motor performance during adolescence and age thirty as related to age at peak height velocity. Annals of Human Biology, v. 17, n. 5, p. 423-435, 1990.

MACHADO, D. R. L.; BONFIM, M. R.; COSTA, L. T. Pico de velocidade de crescimento como alternativa para classificação maturacional associada ao desempenho motor. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, v. 11, n. 1, p. 14-21, 2009.

MALINA, R. M.; BOUCHARD, C.; BAR-OR, O. Crescimento, maturação e atividade física. 2 ed. São Paulo: Phorte, 2009. 784 p.

MENDEZ-VILLANUEVA, A. et al. Is the relationship between sprinting and maximal aerobic speeds in young soccer players affected by maturation? Pediatric Exercise Science, v. 22, p. 497-510, 2010.

MIRWALD R. L. et al. An assessment of maturity from anthropometric measurements. Medicine and Science in Sports and Exercise, v. 34, n. 4, p. 689-694, 2002.

PHILIPPAERTS, R. M. et al. The relationship between peak height velocity and physical performance in youth soccer players. Journal of Sports Sciences, v. 24, n. 3, p. 221-230, mar. 2006.

ROWLAND, T.W. Fisiologia do exercício na criança. 2ed. São Paulo: Manole, 2008. 295p.

SHERAR L. B. et al. Prediction of adult height using maturity based cumulative height velocity curves. Journal of Pediatrics, v. 147, n. 4, p. 508-514, 2005.

SHERAR L.B.; BAXTER-JONES A.D.G.; MIRWALD R.L. Limitations to the use of secondary sex characteristics for gender comparisons. Annals of Human Biology, v. 31, n. 5, p. 586-593, 2004.

Um comentário:

Tiago Gomes disse...

ola, Felipe gostei muito da sua postagem e gostaria de saber se existe a possibilidade de me enviar esse artigo para que eu possa ler por favor!

desde já muito obrigado!
judoreacao@gmail.com